Categoria: SAÚDE EM FOCO

Consumo de fast-food e emagrecimento de forma saudável: é possível?

A revista Exame publicou uma matéria com o seguinte título: “Homem perde 17 quilos comendo só McDonald’s por 3 meses – Equilibrando nutrientes e fazendo exercícios, professor americano mostrou que é possível ser saudável mesmo consumindo apenas fast-food”. Com uma foto de um dos sanduíches mais famosos do mundo, e outra imagem com o antes e o depois da dieta com produtos da conhecida rede de fast-food, a matéria inicia chamando a atenção dos leitores ao dizer que o professor de ciências americano John Cisna, da cidade de Ankenky (Iwoa, Estados Unidos), provou que, para ser saudável, uma alimentação equilibrada juntamente com a prática de exercícios físicos é o suficiente, mesmo com o consumo diário de fast-food. O experimento, que virou documentário, foi conduzido pelo professor com o auxílio de 3 alunos, sendo caracterizado por um programa nutricional com duração de 3 meses, incluindo 3 refeições diárias totalizando até 2000 calorias (relatado que a quantidade de macronutrientes foi próxima à recomendada por médicos e nutricionistas). O professor consumiu apenas produtos da rede de fast-food, como saladas, sorvete, batatas fritas e sanduíches, e iniciou a prática diária de caminhada com duração de 45 minutos, alterando sua rotina sedentária. Ao final do estudo, o professor obteve redução de, aproximadamente, 17kg, juntamente com diminuição dos níveis de colesterol total e frações.

 

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Algumas indagações importantes devem ser levantadas: É possível uma dieta ser considerada equilibrada com produtos de fast-food consumidos 3 vezes ao dia? Como eram os hábitos alimentares do professor antes do início do estudo? Quão maior era o consumo energético? Qual o impacto do início da prática de atividade física sobre os resultados? Também foi considerado o equilíbrio de micronutrientes? Foram avaliadas as possíveis deficiências nutricionais neste período? Além da perda de peso, houve melhora de alguns parâmetros clínicos em 3 meses. Mas em longo prazo, como seria a variação destes resultados?

Assim, podemos verificar que diversos dados da metodologia do estudo não foram expostos ou não foram avaliados, sendo, assim, insuficientes para justificar adequadamente a interpretação dos resultados apresentados pela matéria, gerando dúvidas se os mesmos persistirão ao longo do tempo e quais as consequências adversas em longo prazo.

Neste sentido, é possível encontrar na literatura científica alguns estudos que avaliaram os efeitos do consumo de fast-food por um maior período de acompanhamento, como uma pesquisa publicada pelo European Journal of Clinical Nutrition, que investigou a ocorrência de síndrome metabólica (combinação de fatores de risco para doenças cardiovasculares) como consequência do consumo de fast-food, após 3 anos de seguimento. A pesquisa, realizada com 1476 adultos iranianos com idade entre 19 e 70 anos, encontrou que o maior consumo de fast-food foi correlacionado com maior risco para síndrome metabólica, elevação nos níveis séricos de triglicerídeos e da relação triglicerídeos/HDL, maior relação cintura/quadril e menor consumo de alimentos ricos em fitoquímicos ou fibras.

Resultados semelhantes foram evidenciados em outro estudo, que avaliou dados de 1944 adultos durante 2 anos. Foi observado que a ingestão de fast-food se relacionou significativamente com redução na ingestão de vegetais, frutas, carotenoides, fibras, ácido fólico e cálcio; maior IMC, circunferência de cintura e níveis sanguíneos de triglicerídeos; e maior risco para formação de placas de ateroma, indicando que o consumo deste tipo de alimentação pode ser relacionado a uma ingestão dietética de baixa qualidade e a fatores de risco cardiovascular.

 

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Reforçando estes resultados, outras pesquisas publicadas em revistas científicas, que também envolveram diversos participantes, encontraram que a ingestão habitual de fast-food pode ocasionar aumento de peso, estresse oxidativo, baixa ingestão de frutas e vegetais, deficiências nutricionais, aumento de gordura abdominal e elevação dos níveis de insulina e glicose sanguíneos.

Assim, conseguimos verificar a complexidade que envolve o consumo deste tipo de alimentação, que pode oferecer diversos riscos à saúde, como doenças crônicas não transmissíveis, que incluem hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares e até mesmo câncer. Portanto, dietas focalizadas apenas no consumo de calorias para o emagrecimento possuem baixa qualidade nutricional, sendo ricas em gorduras, açúcares e aditivos químicos e pobres em vitaminas, minerais e compostos bioativos, os quais são essenciais para o bom funcionamento do organismo e, consequentemente, para a perda de peso e prevenção de doenças.

Além disso, já foi mostrado em estudos científicos que o total de calorias consumidas e utilizadas pelo corpo não é o único fator capaz de regular o peso ou a concentração de gordura corporal. Fatores genéticos, hormonais e gastrointestinais exercem um papel fundamental na manutenção da saúde e do peso e sabe-se que todos estes fatores podem ser modulados pela alimentação, de forma positiva ou negativa.

A atividade física também pode exercer um importante impacto sobre a composição corporal, pois influencia diretamente o gasto de energia diário. Um estudo mostrou que a prática de atividade física em indivíduos sedentários ocasionou redução de gordura visceral e melhora da sensibilidade à insulina independentemente da restrição de calorias.  Outro estudo encontrou que a prática de atividade física pode auxiliar na perda de peso e na aderência à dietas com restrição de calorias. Em mulheres sedentárias na pós-menopausa, a prática de caminhada sem mudanças na dieta possibilitou melhora na composição corporal. Já idosos obesos sedentários que iniciaram a prática de atividade física apresentaram maior perda de gordura corporal em relação aos que permaneceram sedentários. Dessa forma, considerando os malefícios dos produtos de fast-food já apresentados anteriormente, seria possível que os resultados obtidos pelo professor sejam, em parte, uma consequência desta mudança em sua rotina sedentária.

Portanto pode-se concluir que a matéria em questão teve forte apelo à possibilidade de perda de peso com o consumo de fast-food, o que pode induzir o leitor a acreditar que com este tipo de alimentação, juntamente com a prática de atividade física, é possível reduzir o peso corporal de maneira saudável. Todavia, não foram considerados os diversos e importantes contrapontos envolvidos. Temos que ter muita cautela com notícias de alimentação e saúde publicadas nos diferentes meios de comunicação, pois não existem dietas milagrosas, mas sim, planos alimentares individualizados elaborados por nutricionistas, que, seguidos com determinação e objetividade, proporcionam o equilíbrio do organismo e a perda de peso com saúde plena.

Mídia e Nutrição

Alimentação, saúde, bem-estar e corpo perfeito. Muitos são os sites da internet, blogs e revistas falando sobre emagrecer de variados modos e utilizando de inúmeras estratégias da moda, a fim de reduzir os quilos extras na balança. Matérias e dicas de nutrição são divulgadas em todos os meios de comunicação, principalmente na internet através das redes sociais. Isto faz com que a população cada dia apenas busque informações soltas, muitas vezes sem embasamento cientifico, outras vezes vinculadas a marcas de produtos que sem querer ou não buscam apenas a venda de ideias. Ou seja, somos bombardeados por informações nutricionais todos os dias desvinculadas de análise crítica e muitas vezes nos tornamos nutricionistas e médicos de nós mesmos. Ai que mora o perigo.

Vender ideias é muito fácil, mas será que adquirir corpo perfeito a qualquer custo realmente é o caminho da saúde? Ou será que algumas destas dicas nutricionais que fazem reduzir peso de forma rápida prejudicam nossa saúde em longo prazo? Inúmeras matérias têm saído na internet sobre como emagrecer ou perder a barriguinha tão indesejada. Dieta dos pontos, da proteína, zero carboidratos, do tipo sanguíneo, da sopa, das frutas, dos sucos, do limão, entre outras. Cinco, dez, vinte alimentos no controle do peso ou para secar o abdômen. Alimentos no controle da pressão arterial, alimentos no combate ao câncer. Se pararmos para analisar, a cada dia apenas são vendidas mais informações nutricionais, ou seja, cabe aos consumidores exigir a informação correta e aos nutricionistas esclarecer o que é mito ou verdade.  Pois se formos considerar realmente, equilíbrio é tudo, e não serão cinco alimentos específicos que vão combater o câncer e sim todo um hábito alimentar saudável por anos, atividade física e estilo de vida como um todo. A nutrição ajuda sim e é grande aliada da saúde, mas necessitamos sempre de cautela, dose certa e diversificar os alimentos na nossa alimentação.images (4)

Neste contexto, em uma breve circulada pela internet é possível ver uma série destas notícias que devem ser melhor esclarecidas. Em uma matéria publicada na revista Saúde mostra uma pesquisa realizada na Universidade de Lund, na Suécia, onde averiguou que uma proteína chamada Lfcin4-14 (encontrada do leite), desacelera o crescimento de células cancerosas do cólon. Pesquisadores observaram, após exposição de células danificadas desta porção do intestino à tal proteína, que as mesmas reduziram seus prejuízos, sugerindo um possível efeito protetor contra os danos no DNA celular. Por outro lado, algumas dúvidas podem permear esta questão, por exemplo, a proteína isolada in vitro pode sim fazer efeito na progressão deste tipo de câncer, mas supor que os produtos com leite também estariam fazendo este efeito como chama a matéria divulgada é outro caminho a se averiguar especificamente. Ao analisar algumas pesquisas realizadas nos últimos anos observou-se uma relação contrária do mesmo na progressão do câncer, o que deve ser levado em consideração. Portanto, investigar antes de levar a informação adiante é imprescindível nos dias atuais.

Alguns estudos tem mostrado relação de aumento do risco de câncer de próstata com o aumento do consumo de leite. Americanos averiguaram que esta relação modificava-se com o tipo de produto utilizado, sendo que o leite desnatado foi associado a um maior risco de câncer de próstata não agressivo, e seu produto integral a um aumento de mortalidade, ou seja, após diagnóstico o mesmo parecia intensificar a progressão do mesmo. Para incrementar ainda mais esta informação, a Harvard School apresentou a publicação de um guia chamado Healthy Eating Plate, onde orienta a redução de lacticínios da alimentação. O leite de vaca é verificado na prática clínica ser um alimento altamente alergênico, além de ser frequentemente relacionado à constipação, refluxo gastroesofágico, problemas de pele (eczema), sinusite, enxaquecas e dores nas articulações. A mesma publicação relata a importância do consumo de vegetais verde escuros, grãos e leguminosas a fim de suprir as necessidades nutricionais de cálcio, fontes estas de qualidade na alimentação. Porém esta informação também foi alvo das redes sociais, onde vinculou-se que a mesma instituição orientava a remoção dos leite e derivados da alimentação e não a redução. Se ele deve ou não ser inserido na alimentação, cabe aos profissionais e seus pacientes averiguarem juntos, mas que a informação repassada deve ser a mais íntegra possível, não há dúvidas que temos que começar a ser mais cautelosos.

O site Terra publicou um relato de uma jovem adolescente de 90kg que após deixar de comer bolacha recheada perdeu 35kg. Estes alimentos doces definidos como palatáveis favorecem a alimentação passiva, ganho de peso e aumentam a predisposição a obesidade, uma vez que apresentam baixo valor nutricional, teores muitas vezes elevados de gordura e sacarose, ou seja, não há duvidas que estes alimentos fazem mal a saúde. Alguns estudos sugerem que a ingestão intermitente isolada de alimentos palatáveis poderia desencadear compulsão alimentar por alimentos hiperglicídicos e hiperlipídicos e uma alteração na resposta neuronal de recompensa central, mecanismo este semelhante ao que ocorre em indivíduos viciados em drogas. Entretanto, o que vale ressaltar é que a retirada da bolacha recheada sozinha sem equilibrar o restante da alimentação não faria a redução do peso como relatado na matéria. A inserção de alimentos saudáveis, a retirada destes e outros alimentos ricos em gordura e açúcar, aliado a atividade física é que realmente podem trazer os resultados observados. Ou seja, mais uma vez a mídia utilizada da sua força de impacto para chamar a atenção a um produto específico, seja ele bom ou ruim, mas fazendo o consumidor focar em uma ideia e não no equilíbrio nutricional como um todo.

Uma matéria publicada na revista Dieta Já, disponível na internet faz menção a “Dieta da Goji” que emagrece dois quilos por semana. Do mesmo modo, o programa Mais Você anunciou os inúmeros benefícios da Goji Berry no que se refere ao potencial efeito antioxidante desta frutinha vermelha, podendo ajudar no emagrecimento, pois queima gordura com mais facilidade, além de melhorar o sono e o humor. Em relação à parte científica, atualmente esta fruta tem sido foco de pesquisas realizadas em países ocidentais e europeus devido ao seu potencial efeito antioxidante. Além disso, estudos tem demonstrado que a Goji parece ser hepatoprotetora, além de mediar inibindo o sistema renina/angiotensina, que pode estar relacionado ao tratamento da Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS). Pesquisadores também tem apresentado possível relação destas frutas no controle glicêmico, efeito anti-apoptótico, além de aumentar os níveis de zeaxantina, benéfica no tratamento de degeneração macular relacionada à idade. Composta por 18 aminoácidos diferentes, dentre eles a taurina, a Goji tem sido estudada como importante agente terapêutico nas complicações do diabetes tipo II, além de inibir a ativação da caspase-3 em cardiomiócitos isquêmicos. Que a Goji realmente possui propriedades terapêuticas por meio do seu poder antioxidante e imunomodulador não há dúvidas, mas responsabilizar ela totalmente por uma perda de peso de dois quilos por semana, é necessário um pouco mais de cautela. Inserir a mesma na alimentação por seu valor nutricional inquestionável, assim como as outras berries é sim estratégia valiosa a saúde e deve ser considerada.

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Muitos são as matérias publicadas todos os dias, sem contar com as inúmeras dicas e cardápios padronizados orientados muitas vezes por profissionais nutricionistas, médicos ou mesmo educadores físicos. O mínimo de coerência, análise crítica e discernimento devem ser considerados, porque equilíbrio alimentar e nutricional é fundamental para melhora da saúde como um todo, independente de cada objetivo.

 

Neste verão, boa alimentação, sol na medida certa e vitamina D

A vitamina D pode ser proveniente de alimentos ou ser sintetizada na pele, quando estimulada por raios solares ultravioleta. Estima-se que 30 minutos de banho de sol no verão sejam suficientes para a produção de cerca de 20.000 UI, o equivalente ao encontrado em 200 copos de leite. Sendo assim, a exposição solar tem maior impacto sobre o estado nutricional para este nutriente que sua ingestão dietética.

Em países tropicais como o Brasil, a exposição ao Sol deveria garantir bom aporte de vitamina D, prevenindo sua carência. Porém, mesmo em países onde incidem grandes quantidades de raios solares, a deficiência desta vitamina tem grande prevalência. Os hábitos do mundo moderno, como passar a maior parte do tempo em locais fechados e usar excessivamente bloqueadores solares podem explicar tal fato. Em meio a uma verdadeira epidemia mundial, a deficiência de vitamina D tem sido alvo de publicações midiáticas, como ocorreu na revista Boa forma de Outubro de 2012, em reportagem intitulada “Sol e vitamina D”.

Duas formas químicas têm atividade de vitamina D: o ergocalciferol (D2), produzido sinteticamente através de esteróis vegetais e fúngicos e colecalciferol (D3), produzido na pele humana e presente em alimentos de origem animal. Em ambos os casos, para agir, a vitamina deve ser transformada no fígado em 25-hidroxivitamina D, principal forma circulante, e ser novamente hidroxilada no rim, tornando-se 1,25-dihidroxivitamina D, forma mais ativa da vitamina. As principais funções deste composto são regular a homeostase do cálcio e modular as ações do sistema imunológico.

Sabe-se que bons níveis de vitamina D podem prevenir osteoporose e fraturas, já que este nutriente age aumentando a absorção intestinal de cálcio, reduzindo sua eliminação urinária e diminuindo a reabsorção óssea. Porém, para uma boa saúde óssea não só a vitamina D e o cálcio são importantes, mas também o magnésio, o zinco, o manganês, as vitaminas K e C, entre outros nutrientes.

Menos conhecida pela população, porém, não menos importante, é a ação da vitamina D sobre o sistema imune.
Importante destacar que a maioria das células e tecidos no corpo possui receptores para vitamina D, que estimula a transcrição nuclear de diversos genes para alterar a função celular ou promover uma rápida resposta nas membranas celulares. Esta vitamina possui potente ação antiinflamatória e previne reações imunológicas exacerbadas, relacionadas à fisiopatologia de diversas doenças, a exemplo do diabetes tipo 1 e 2, da esclerose múltipla, do autismo, das síndromes dolorosas crônicas, doenças cardiovasculares, osteoporose e câncer de mama, próstata e cólon . Pesquisas científicas demonstram que a vitamina D pode auxiliar na prevenção ou tratamento de todas as patologias citadas. Induzir células malignas à morte, prevenindo o câncer e melhorando o prognóstico dos doentes, aumentar secreção de insulina pelo pâncreas em indivíduos diabéticos e estimular o crescimento ósseo em crianças são outros exemplos de funções desta importante vitamina.

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Pesquisadores indicam que há atualmente uma deficiência mundial de vitamina D em diversas populações incluindo crianças, gestantes e lactantes, idosos, indivíduos residentes em áreas distantes do Equador e populações com pigmentação da pele escura. O aumento da ingestão de alimentos ricos em vitamina D como ovos, peixes e mariscos, e a exposição solar sem protetores em horários seguros por alguns minutos diariamente, podem prevenir a deficiência desta vitamina e os sérios danos à saúde causados por esta.

Açaí e suas propriedades nutricionais

Originário da região norte brasileira, o fruto da palmeira de nome científico Euterpe oleracea popularizou-se em todo o território nacional nas formas de sucos, polpas, sorvetes e tigelas. O açaí é venerado por quem busca ganho de massa muscular, por ser considerado um alimento “energético”, mas por outro lado, é temido por muitos, devido a sua elevada densidade calórica. Uma análise mais aprofundada das propriedades nutricionais desta fruta nos permite concluir que esta possui benefícios até para quem busca perda ponderal, afinal, densidade energética não é a única nem a principal característica do alimento que o torna obesogênico ou não. O açaí é extremamente antioxidante, propriedade que o torna útil na prevenção de cânceres. Esta característica foi explorada recentemente em reportagem de uma revista de grande circulação no Brasil.

As polpas de açaí congeladas comercializadas no Brasil possuem em média, em cada cem gramas, 0,8g de proteínas, 3,9g de lipídios, 6,2g de carboidratos e 2,6g de fibras. Dos lipídios, prevalece o ácido graxo monoinsaturado oleico, o mesmo encontrado no azeite de oliva e associado à cardioproteção. Por ser rico em lipídios e fibras e pobre em carboidratos se comparado a outras frutas, o açaí possui baixos índice e carga glicêmica, ou seja: sua ingestão não causa picos de glicemia e insulinemia, associados a aumento de gordura corporal e do risco de doenças crônicas não transmissíveis.

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Entre os micronutrientes presentes no açaí, destacam-se a vitamina E (importante antioxidante) e minerais, como manganês (também antioxidante e importante para a saúde óssea), magnésio (essencial à geração e utilização de energia no corpo), cálcio (que age na contração muscular, transmissão do impulso nervoso e na formação dos ossos) e cromo (necessário para uma boa atuação do hormônio insulina). Apesar de não ser grande fonte de ferro, o açaí possui propriedades antianêmicas, talvez por reduzir a inflamação e por consequência, aumentar a disponibilidade de ferro para formação de hemoglobina.

O açaí é extremamente rico em compostos fenólicos que possuem atividade antioxidante e anti-inflamatória. Entre esses compostos, prevalecem as antocianinas, responsáveis pela cor escura da fruta. Devido à abundância dessas substâncias, pesquisas científicas têm associado o consumo de açaí a prevenção de câncer, doenças cardiovasculares,  processos alérgicos, doenças neurodegenerativas e aumento da longevidade. Ao contrário do que é pregado, por seu alto teor calórico, o açaí tem demonstrado ser uma boa opção para indivíduos obesos ou com sobrepeso. Em uma pesquisa, 10 adultos com sobrepeso consumiram açaí diariamente por um mês, e tiveram reduzidos, os níveis de insulina e glicemia de jejum, glicemia pós-prandial e LDL-colesterol.

Com base em dados científicos, podemos abrir mão de “dogmas” que permeiam a nutrição, como o que afirma que alimentos calóricos são necessariamente causadores de obesidade e doenças a esta relacionada. O consumo de açaí deve ser encorajado, inclusive entre indivíduos obesos ou com sobrepeso, desde que inserido em uma dieta individualizada, nutricionalmente balanceada e orientada por nutricionista. As tradicionais tigelas de açaí congeladas (sem xarope de guaraná ou leite condensado) são opções saudáveis e prazerosas para este verão.

Suco ou fruta?! Nesse verão descubra o que é melhor

Na vida corrida da modernidade, alimentos naturais têm sido cada vez menos consumidos, por serem considerados menos práticos. As frutas são exemplos dessa redução no consumo, por ocupar espaço na geladeira, precisarem ser cortadas, descascadas, lavadas, ou receber qualquer tratamento anterior à ingestão. O lugar das frutas está sendo ocupado por sucos, muitas vezes industrializados, vendidos em caixas e sacos, ou feitos com polpa de frutas ensacadas. Quando são feitos sucos naturais, em geral, são coados e adicionados de açúcar ou adoçantes artificiais. Será que estas trocas estão sendo benéficas para a saúde da população?

As frutas são alimentos ricos em fibras solúveis (capazes de reduzir o colesterol e manter a homeostase intestinal) e insolúveis (evitam a obstipação), em vitaminas (dentre as quais destaca-se a C, importante antioxidante que previne doenças crônicas não transmissíveis e envelhecimento precoce) e em diversos compostos bioativos antioxidantes, como carotenoides, flavonoides e terpenos. A maior ingestão de frutas está associada à redução do risco de cânceres, obesidade, doenças neurodegenerativas, hipertensão, entre outras enfermidades. Sendo assim, são essenciais em cardápios saudáveis.

Sucos industrializados (aqueles de caixinha ou pó, ainda piores), por outro lado, não contêm fibras ou compostos bioativos. São adicionados de quantidade excessiva de açúcar (obesogênico e inflamatório) ou de adoçantes artificiais (que podem causar obesidade e enxaquecas). Podem conter corantes, como o de caramelo e a tartrazina, além de outros aditivos químicos, interpretados por nosso organismo como xenobióticos, e assim sendo, geram estresse oxidativo e inflamação. O consumo de bebidas adoçadas está associado a elevação do risco de diabetes, obesidade, doenças cardiovasculares, entre outras patologias.

Outra opção muito utilizada nos dias atuais é o uso das polpas de frutas, que em geral, não contêm aditivos químicos, o que já se constitui em uma vantagem sobre os sucos de pó ou caixinha. As polpas, porém, são pobres em fibras, que são retiradas ou quebradas por enzimas em seus processamentos. Perdem também algumas vitaminas e compostos bioativos não resistentes ao tratamento térmico que recebem antes de serem ensacadas. Uma dica é não adicionar açúcar ou adoçantes artificiais.

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Os sucos naturais das frutas não substituem as frutas in natura, mas certamente superam em benefícios à saúde, os de caixa, pó ou polpa. Bater frutas doces, que não necessitam ser adoçadas, não coar os sucos e combinar com ingredientes como hortaliças, fibras e especiarias pode ser uma ótima ideia. Abacaxi com hortelã, laranja com cenoura, maçã com couve e limão… São infinitas combinações de sucos antioxidantes, destoxificantes, e antiinflamatórios. Lembre-se que líquidos durante as grandes refeições não são boas opções, pois dificultam a digestão.

Suco verde, moda e emagrecimento

Dá-se o nome de metabolismo ao conjunto de reações químicas que acontecem no nosso organismo. O corpo humano é uma máquina complexa, que necessita de inúmeros nutrientes para garantir seu funcionamento.

O termo “Dieta” foi originado da palavra grega “díaita” e significa um “modo de vida”. Infelizmente, grande parte das pessoas ao invés de adotarem um estilo de vida saudável ainda esperam dietas e/ou alimentos milagrosos, que levem embora em duas semanas a gordura acumulada durante toda uma vida.

A Revista Veja do dia 22 de Janeiro de 2014 publicou como matéria de capa uma reportagem sobre o suco verde, colocando-o como “novidade no universo das dietas da moda”, citando inclusive, artistas e pessoas famosas que fazem seu uso com o objetivo de emagrecimento. Não tem nada de “moda” na ingestão do suco verde. Há tempos seus benefícios são conhecidos, destacando-se sua capacidade de melhorar o funcionamento do intestino, a capacidade destoxificante do fígado, ajudar na imunidade e diminuir a inflamação.

A obesidade pode ser considerada um desequilíbrio funcional, pois hoje já se sabe que a célula de gordura secreta diversas substâncias inflamatórias que alteram o metabolismo. Na nutrição clínica funcional, o tratamento de um paciente obeso envolve muito mais do que simplesmente a redução do total de calorias ingeridas – envolve também a retirada de alimentos alergênicos e inflamatórios e a introdução de alimentos funcionais e compostos bioativos, respeitando a individualidade bioquímica.

O suco verde pode até auxiliar no processo de emagrecimento por ajudar a reestabelecer o equilíbrio orgânico e por conter substâncias termogênicas (como gengibre, por exemplo), mas é preciso que as pessoas adotem um estilo de vida saudável como um todo, respeitando sua rotina, o horário das refeições, controlando a ingestão de açúcar e gordura ruim, xenobióticos, dentre outros. Pouco adianta ingerir o suco verde no café da manhã, almoçar fast food com refrigerante, lanchar pão francês com presunto e ser uma pessoa estressada e sedentária.

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Matérias como essas publicadas pela Revista Veja deveriam deixar claro para o leitor que para emagrecer com saúde e manter-se magro, não devemos seguir a dieta da moda ou tomar suco verde porque determinado artista toma, mas sim respeitar nossa individualidade e procurar profissionais capacitados para nos orientar da melhor forma.

Alergias e intolerâncias alimentares: chega de dúvidas sobre elas

Alergias e intolerâncias alimentares são cada vez mais comuns em nossa população, e uma das causas deste aumento de prevalência é a progressiva inserção de alimentos industrializados na cultura alimentar ocidental. Estes termos são muitas vezes confundidos, o que talvez se justifique pelo fato de um mesmo alimento poder desencadear os dois quadros ou por ambas serem reações adversas causadas por alimentos. A distinção entre alergias e intolerâncias alimentares foi tema de uma reportagem atual de uma revista de grande circulação no Brasil.
As alergias alimentares ocorrem após a ingestão de alimentos, envolvendo mecanismos imunológicos. Na maior parte das vezes, é causada por um componente proteico do alimento, estando assim, incorreto o termo “alergia à lactose”, já que esta substância, um carboidrato, não é capaz de estimular o sistema imune. Alergias podem ser imediatas ou tardias. O primeiro grupo é de fácil identificação, pois a reação ocorre instantes após a ingestão do alimento. Estas reações são hipersensibilidades tipo 1, mediadas por IgE. Em resumo, o mecanismo é este: um pedaço de proteína mal digerida entra na corrente circulatória, estimula a produção do anticorpo IgE, que induz a produção de mediadores como a histamina, responsável por sintomas como inchaço, vermelhidão e coceira.

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Alergias tardias são mais difíceis de serem percebidas, pois os sintomas podem aparecer até 4 dias após o contato com o alérgeno. Neste caso, outros tipos de anticorpos e células do sistema imunológico podem estar envolvidos, mas os sintomas são semelhantes. As alergias alimentares podem expressar-se como urticárias, dermatites, rinites, sinusites, asma, e até quadros graves como edema de glote e anafilaxia. Os alimentos mais comumente envolvidos em reações alérgicas de ambos os tipos são leite e seus derivados, derivados do trigo, frutos do mar, oleaginosas, soja, milho e ovos. Aditivos alimentares, a exemplo de corantes amarelos e vermelhos podem também causar alergias.
As intolerâncias alimentares são reações adversas a alimentos causadas por características do indivíduo, sem envolvimento de mecanismos imunológicos. Um exemplo clássico de intolerância é a intolerância à lactose, causada por insuficiência da enzima lactase, capaz de digerir o carboidrato do leite em glicose e galactose, que podem ser absorvidos. Sabe-se que adultos têm naturalmente menor quantidade de lactase em seu intestino, pois evoluímos para ingerir lactose apenas durante a infância. A intolerância à lactose pode ser causada por deficiência genética da enzima, quando é denominada “deficiência à lactose primária”. Este quadro é mais grave e raro. É detectado ainda na infância. Diarreias prolongadas, uso de laxantes e disbiose intestinal podem causar uma intolerância secundária à lactose, que é um distúrbio temporário e de menor gravidade. Os sintomas são, em sua maioria, gastrintestinais, como náuseas e diarreias, embora sintomas sistêmicos possam aparecer em virtude da deterioração da saúde intestinal.
Existem ainda reações tóxicas, causadas por substâncias presentes em alguns alimentos. As aminas bioativas são substâncias frequentemente associadas a estes quadros. Peixes, moluscos e crustáceos mal conservados podem conter quantidade significativa de histamina, e assim, quando ingeridos, podem mimetizar alergias. Alimentos fermentados como queijos e vinhos, assim como frutas, ao exemplo do abacaxi, contêm tiramina, uma amina bioativa associada principalmente a cefaleias, assim como a octopamina presente em frutas cítricas. Aditivos alimentares como realçadores de sabor, conservantes e corantes artificiais também podem causar reações deste tipo.

MEL E O EMAGRECIMENTO

O mel é uma substância doce produzida pelas abelhas a partir do néctar das flores; sua utilização como edulcorante é conhecida em diferentes partes do mundo. Seu alto teor de açúcares, pequenas quantidades de aminoácidos e lipídios, juntamente com algumas vitaminas, minerais e compostos antioxidantes transmite o seu elevado valor nutricional. Porém, as amostras de mel que estão disponíveis comercialmente, diferem em qualidade por conta de vários fatores, como as condições geográficas, sazonais e de processamento, fonte floral, embalagens e período de armazenamento.
As propriedades terapêuticas do mel já são reconhecidas e estudadas há muito tempo. Sabe-se que ele tem o poder de proteger o organismo contra vírus, inflamações, radicais livres e até mesmo câncer. O trato gastrointestinal (TGI) contém grande quantidade de bactérias essenciais e benéficas, especialmente bifidobactérias. Tem sido sugerido que o mel pode aumentar a quantidade dessas bactérias no TGI devido à presença de fibras prebióticas em sua composição.

Mais recentemente, têm-se atribuído ao mel propriedades emagrecedoras. A revista Corpo a Corpo número 302 apresentou a matéria de capa a seguinte frase “Dieta do mel emagrece três quilos em um mês e mata a fome de doce”. Um estudo publicado pela revista International Journal of Food Sciences and Nutrition investigou o efeito do consumo de mel sobre o peso e alguns parâmetros bioquímicos em pacientes diabéticos. Eles demonstraram que seu consumo pode proporcionar efeitos benéficos sobre o peso corporal e lipídios no sangue de pacientes diabéticos. Entretanto, devido ao aumento da hemoglobina glicada, seu consumo deve ser cauteloso. Outro estudo, dessa vez conduzido em ratos, observou que em comparação à sacarose o mel pode reduzir o ganho de peso e adiposidade, provavelmente devido à menor ingestão de alimentos por parte dos ratos que receberam mel ao invés de açúcar.

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Os estudos ainda são muito escassos, faltam dados que justifiquem e comprovem essa suposta propriedade emagrecedora do mel. Temos que ter bom senso nesse caso, pois o mel pode ter valor nutricional interessante, mas não deixa de ser uma fonte de carboidrato, na forma de frutose, cujo consumo excessivo pode ser prejudicial a saúde. Além disso, é importante considerar que não existe um único alimento capaz de promover perda de peso – os efeitos benéficos só serão alcançados com o consumo de uma dieta nutricionalmente equilibrada.