“Menina da Enxada” vira apresentadora de quadrilhas no primeiro São João da vida dela

Por Aglair Abreu

As comidas juninas, ela já conhecia. Foi criada na roça, plantando milho e vendo a mãe fazer canjica e pamonha. O que ela nunca imaginou é que o sabor do São João que conhecia apenas dentro de casa, pudesse ter um gosto ainda melhor. Essa história pode até se encaixar na vida de muitas pessoas, mas, na da jornalista Kauany Souza, ela tem uma particularidade.

Conhecida em todo o país como “A Menina da Enxada” por ter feito uma homenagem aos pais agricultores no baile de colação de grau da Universidade, Kauany, apesar de todo sucesso que havia alcançado,  não sabia o que era uma festa de São João. E se na vida não havia chegado perto nem de um arraiá, muito mais distante era o Mossoró Cidade Junina, o maior evento junino do Rio Grande do Norte. Era uma menina pobre e de formação evangélica que não teve oportunidade de sair da pequena comunidade e não recebera influência de festa.

Este ano, tudo que já tinha ouvido falar somente no rádio nos dias de sossego quando morava no Sítio Caraúba Torta, município de Almino Afonso, interior do Estado, foi visto ao vivo e em cores. E não foi uma primeira vez qualquer. A Menina da Enxada não foi apenas espectadora dos festejos que simbolizam a alegria do campo. Kauany era protagonista na Arena Deodete Dias, no Festival de Quadrilhas do Mossoró Cidade Junina.

Vestido de saia rodada, maquiagem como manda o figurino, ela mandou ver no microfone ao convocar os grupos de quadrilhas juninas.

“Nunca tinha visto. Fiquei encantada”, dizia repetidas vezes ao ser perguntada sobre qual a sensação de ter participado do São João que ela guardava na lembrança por apenas ouvir dizer. Para Kauany, ser locutora, mestre de cerimônia, como queiram chamar, virou uma experiência quase indescritível.

A sensação complexa pelo aprendizado se mistura às lembranças da criança que sonhava um dia ser jornalista e aparecer na televisão que também só veio a conhecer com 17 anos de idade. À época, nunca tinha visto sequer um aparelho do tipo. Anos depois, virava repórter de televisão e, ainda, entrevistada em rede nacional pelo orgulho dos pais que tiravam da terra o sustento da família.

Assim, na conversa que parecia informal e que aos poucos foi tomando ares de entrevista, Kauany confessou que o que mais lhe deixava entristecida é que ninguém acreditava que um dia ela seria jornalista.

O sonho da menina que vivia no mato se revelou. Agora, jornalista, Kauany descobriu que a enxada que um dia calejou suas mãos a cortar a terra, lhe permitiu a realização do grande sonho.

As lágrimas, antes de incerteza e que teimam em molhar seu rosto, são a prova que de que nascendo em um rancho se pode trazer do berço a riqueza de ser uma vencedora.

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